Por Mariel Reis
#1 Mocinha
Os incômodos corporais, um artifício. O vestidinho vermelho e curto com pequenos corações estampados mostra uma predisposição amorosa. Um casaquinho negro sobre os ombros, óculos escuros para disfarce dos olhos… Distraída, movimenta-se. Desnuda as coxas e todo o interior da roupa. Desvio os olhos. Ela não aceita ser retirada do centro das atenções. Estica as pernas, brinca com os pés. E o vestido, antes comportado, sobe uns centímetros aflitivos. Simula tremor, a mocinha apreensiva: responsável por um destino qualquer ignorado. Ritmicamente um dos pés transmite ao piso uma mensagem indecifrável. Escreve com dedos magros e nervosos alguma boa nova. Levita, nesse momento, o quadril – sentada em brasas? O coque no alto da cabeça – cabelos negros e lisos -, uma altivez repleta de cinismo. Parece dizer: “Não, não quis seduzi-lo, nem abri minhas pernas. Sou discreta demais. Elegante”. Ninguém duvida. Ou quase. Somente o mocinho sentado à sua frente.
# 2 A Aluna
Uma aluna, a das pernas, acostumada a vir desprotegida, fez a alegria dos marmanjos: abriu-se, acintosamente, em ipsilon; o batom vermelho e a mecha de cabelo caída sobre os óculos, sem chance de defesa do espectador hipnotizado por sutis paisagens esboçadas pela puberdade. Levantei-me e caminhei para longe de seu pouso antes que ela me convidasse para um deslize ótico.
# 3 A Ciclista
A bicicleta aproximou-se do cruzamento. A garupa estava ocupada por apetrecho de segurança para criança. A mulher, com aparência de quarentona, tinha o corpo em forma. Uma blusa amarela leve e um short de lycra cinza mostravam os cuidados dispensados à manutenção física da ciclista. O sinal fechado obrigava a parada. Talvez não tivesse a disposição dos dias anteriores em que célere atravessaria a fileira de automóveis parados no trânsito congestionado da avenida. Tirou os pés dos pedais, estendendo as pernas para auxiliar o descanso durante o instante. Parecia alheia quando movimentou os quadris , friccionando-se no selim como ajeitando-se na montaria. Parecia ter perdido a comunicação julgada satisfatória, repetindo inúmeras vezes a operação sem constrangimento. Os cabelos cobriam parte do rosto da ciclista. Talvez estivesse divertida pelo escândalo; talvez não passasse de impressão precipitada do observador – alegre por ter um juízo sobre o fato. E mesmo um erro de perspectiva por não lhe saber a natureza do incômodo. O sinal abria. Ela, a ciclista, emergiu da cabeleira desgrenhada, sumindo rapidamente entre a fumaça e os veículos.
(2014)
Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).