Por Mariel Reis
O cronista é um tagarela. Não há dúvida. Ele pensa para fora, todo tempo precisa se enxotar de si mesmo, vive da disponibilidade, sacrifica a vida interior. Não possui segredos ou não pode tê-los sem o tributo público, sem ser espiado pelas centenas de olhos de seres imaginários tão intrincados quanto os serafins e com uma vantagem: eles podem se comunicar com o cronista através da seção de cartas ou de uma mensagem direta pelo correio eletrônico, podem ser gentis e amáveis, alguns se esforçam nesse sentido, enquanto outros, não se preocupam com a educação, são rudes e insultuosos.
O tagarela pode ser interessante ou entediante, depende das histórias que conta para si, portanto, um bom cronista deve optar por ser interessante sempre que possível, inclusive quando destituído dessa condição. Porque não é fácil ser todo o tempo. Eu não me importaria em ser assim se a vida me ajudasse, mas a vida não colabora com ninguém, nem com os milionários. Mentira, os milionários sempre acham um jeito de suborná-la e concedem-se um certo brilho advindo dessa mal-humorada. Os milionários conseguem outras coisas, porém não é hora de falar disso.
Se os milionários não podem ser o objeto da crônica, se não posso ser uma espécie de Nick Carraway , o que fazer? É certo que Francis Scott Fitzgerald não pensou em mim ou em alguém em especial. Seria malfazejo? Estamos distantes um do outro e o caminho a percorrer demandaria um esforço sem vantagem tanto para Carraway quanto para mim. E seria mais uma propaganda para O Grande Gatsby. E ele, o autor, já tomou o melhor uísque. E eu não molhei o bico. Ou se molhei foi com água da bica do botequim da esquina.
Aliás, o botequim, melhor, boteco, pede a regra da boa redação não repetir palavra, apelar ao sinônimo, vende um prato feito maravilhoso. Além de uma rica paisagem: a filha do proprietário. Daisy Buchanan não tem aquele rabo maravilhoso ou os peitos tão empinados. Falei alto rabo, pura distração, para emendar pergunto pela rabada e a atendente, um brinco, responde que só na próxima quinta-feira. Uma pena, finjo amuo. O cronista é um tagarela. Na pracinha, em frente, um idoso com rádio de pilha escuta a imprensa esportiva. É o bacalhau, não é o Chacrinha, é o Vasco da Gama. Uma voz afetada ou aflautada surge, as mãos batem nos quadris, chamando a atenção da atendente. O botequineiro cospe o amigo fresco demorou, apesar da reprovação, aceita os beijos da boneca.
Está feita a crônica? Sou cobrado. Não está. Penso, gaiato, a crônica não é um bêbado em uma noite fria, buscando sua casa em um bairro em que todas são iguais? É filosofia demais. Quero mais conversa fiada. Você piscou, paguei o almoço, deu adeus à geografia abundante. Alguém lê por cima do meu ombro o texto, sugerindo terminar na alusão aos morros cariocas. Não, não sei o que tenho ainda a dizer, todavia não é o término, ainda. E quando ele virá? Talvez agora, refletindo que a cachaça depois da comida quase me impôs o estado de cronista. A minha sorte foi ter fechado bem a boca, embora as moscas parecessem pequenos leitões.
Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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