A última vez em que trabalhei com falsificação foi curiosa. Raramente precisava procurar clientes: o estúdio de desenho era movimentado e meu ofício principal eram as aulas de nanquim. Foi o intermediário quem trouxe a proposta. Não respondi de imediato. Fiz vários estudos até alcançar a semelhança perfeita entre as assinaturas. Preocupava-me também a pressão da escrita, por isso pedia sempre cartas, diários e outros manuscritos para observar. Uma assinatura podia facilitar a vida de alguém; outra, arruiná-la. O ambiente de um falsificador não é agressivo como o de uma boca de fumo. Pode parecer normal, se não forem os detalhes. O tempo dos cheques foi o auge.
Depois vieram os diplomas, que exigiam perícia maior e a colaboração de outros profissionais. Eu me ocupava da compra de canetas e papéis e me apaixonava por aquele universo. As pessoas ficavam impressionadas com o resultado: parecia que a própria pessoa havia sido convocada para assinar. Algumas assinaturas quase não tinham letras; eram apenas um grafismo engenhoso, criado para dificultar a reprodução. Um trabalho manual e artístico desprezado pelo fim a que se destinava. Quase mediúnico. Por precaução, cobrava sempre três por cento do valor do golpe. Assim evitava parecer um pretensioso cheio de ambição. Se o serviço desagradasse, com certeza estaria ditando do além a história do meu assassinato. Uma fantasia comum ao infrator é parecer, aos próprios olhos, mais importante e perigoso do que realmente é.
A movimentação de estranhos no curso de desenho, gente sem matrícula, despertou a desconfiança do meu empregador. Ele me demitiu, mas não sem antes me testar. Saiu convencido do meu talento — só não queria esse talento por perto. Quando o mercado enfraqueceu, voltei ao desenho com algum êxito: fazia caricaturas numa praça, com muita rapidez. Fui entrevistado por jornais de bairro, fotografado ao lado dos meus desenhos e cheguei a ter uma seção de retratos de personalidades locais. O passado ia se apagando. As canetas serviam a outro propósito. Ainda assim, não desisti das assinaturas. Passava a exibi-las nos balcões dos bares, causando espanto nos fregueses em troca de alguns trocados. Depois parei com tudo.
Alguns anos mais tarde, um acidente paralisou minha mão. Supersticioso, encarei aquilo como um castigo. Mas seria também punição à beleza? Interrompi as perguntas: a inquietação atrapalhava a recuperação. Fiz muita fisioterapia, senti dores intensas ao resgatar os movimentos e reaprendi a escrever. Havia perdido a habilidade. De toda aquela multidão, restava apenas o meu nome, sozinho e sem importância — o único acesso que eu ainda tinha à consciência, onde deveriam nascer novos valores.
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
