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Um resgate

Por Mariel Reis

A última vez que o livro A Aldeia Sagrada, de Francisco Marins, foi emprestado foi no dia seis de abril de mil novecentos e noventa e cinco. Portanto, se a data fosse assumida como a de nascimento, ele seria de Áries, tendo como regente Marte, ligado à guerra. A aluna Maria Cláudia Roenick classificou-o como interessante. Certamente ela não associou o conteúdo, a Guerra de Canudos, com a simbologia zodiacal sobre o fato, nem imaginou que alguém no futuro relacionasse os dois sem contradição.

Volto duas casas. Resgatei o exemplar de A Aldeia Sagrada de uma pilha de descarte. Ele não poderia voltar às mãos de um novo leitor, apesar de não parecer tão ruim seu estado físico. As páginas não têm marcas de oxidação nem estão rasgadas, a capa e a contracapa estão inteiras, restando para investigação a lombada prejudicada, que deixa à vista o miolo com os cadernos e sua deterioração, podendo romper-se. Servi-me de uma fita adesiva para restaurá-lo, o que seria um escândalo para um profissional do ramo. Comecei a leitura depois do remendo, avançando até o presente momento. Aproveitei as informações colhidas na ficha de leitura para tornar atraente o texto. Originalmente o romance pertencia à biblioteca do Colégio João Lyra Filho, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Na verdade, Canudos não aparece logo. É preciso introduzi-lo com a chegada da seca, com a fuga do cenário de desolação, com os crimes e a morte. Didico, sempre acompanhado do cãozinho Tigüera, é o personagem pelo qual veremos todas as coisas. O escritor Francisco Marins decidiu nos contar pelos olhos de um inocente uma página sangrenta da nossa história. Mas, em meio às batalhas entre as forças do governo e os seguidores de Antônio Conselheiro, há uma carta carregada pelo protagonista, endereçada ao pai morto, com o selo da capital, Salvador, que precisa ter o mistério esclarecido. O pai de Didico ajudou no transporte do meteorito Bendegó. Poderia ter enfeitado mais o trecho, convocando Euclides da Cunha, dividindo a resenha em A luta, A terra e O homem conforme Os Sertões, mas desisti, embora a obra de Francisco Marins suportasse.

Na capa está a ilustração de Nelson Reis. Em primeiro plano estão Didico e Tigüera, no segundo plano as cenas que compõem o enredo: da esquerda para a direita, os soldados em batalha, Antônio Conselheiro e Canudos, os retirantes na paisagem seca e a casinha no Corumbê. Não é difícil unir a imagem à outra, a da cachorra Baleia e a família de Fabiano, descrita em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, obra dentro da temática da seca na linha do romance social da década de trinta do século passado. Na folha de rosto está o tombo 002518 e logo abaixo o carimbo circular com os dizeres Colégio Pedro II Realengo Biblioteca, sem outra marca. Talvez volte à pilha do descarte para outro exercício assim, descompromissado, estimulante e revelador.

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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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