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Antes da decisão de Deus

Por Mariel Reis

Por que nunca senti depressão? Meu psicanalista dizia que a raiva ocupava tanto espaço na minha vida que não havia lugar para qualquer tristeza. Meu terapeuta nunca existiu, mas todo o resto, sim. Desde muito novo, sinto um ódio profundo pelo mundo e também um desprezo igual. Não consigo lembrar quando comecei a sentir ira, e não importa. Minha primeira lembrança é uma briga nos fundos da escola primária, sem motivo, só pela diversão da plateia e pela alegria selvagem. Não ficou apenas nesse episódio. Começamos a brigar pelo bairro sem arruinar nossa amizade. Quando alguém era surrado, justa ou injustamente, estávamos lá, com punhos, paus e pedras.

Quando cresci, um galinho magro, cheio de raiva e com uma grande vontade de imolação, consegui meu primeiro trabalho: garoto de recados de um contraventor. Eu queimava. Mas nunca senti tristeza, remorso ou amargura. Às vezes, os caras mais velhos arranjavam brigas entre os moleques, com apostas e gritaria. O vencedor ganhava importância quando não parecia um desesperado, mas a valentia pesava mais. Quantas vezes me meti nisso? Não lembro, como também esqueci todos os rostos que enfrentei, e não duvido que eles também tenham se apagado da memória daqueles outros garotos. Eles devem cruzar comigo nas ruas, sem nenhuma recordação significativa, apenas a certeza de que foram corajosos. Devem imaginar que cada um dos rivais era mais forte do que parecia e que podiam ser eternos naquele ringue improvisado.

Meus irmãos parecem mais reais pela tristeza reunida ou pelos episódios com os quais lidam. Não sou indiferente. Só não encontro sentido ruidoso na tragédia atravessada por todos nós. É só um gladiador mais forte. Quando ouvi falar da história de Cristo pela primeira vez, sabendo que ele venceu a morte, fiquei com vontade de conhecê-lo. Não acreditava na imagem esgalgada conforme era retratada. Ele parecia ser o mais intrépido dos homens. Alguém com um ódio justificado. Mas o que era abominar o Mal? Para um deus, parece fácil. Estou tentando pensar nos termos do menino que desapareceu dentro daquela fornalha. Cristo era mais forte que o Hulk: sovaria o demônio, fazendo com que ele se arrependesse do atrevimento em toda a história sagrada.

Meu desprezo pelo mundo se tornou mais duradouro que todo o meu ódio, embora ele permaneça vivo. Minha idade não permite atos mais vivos, apenas ações pontuais. Não permito que desapareça. Talvez minha incapacidade para a tristeza nasça disso. Não tenho muito mais a dizer. Já percorri boa parte do caminho e não entendo o motivo do desentendimento que me trouxe até aqui. Atravessando uma praça, três rapazes me cercaram e me bateram como se nunca tivessem me visto. Eles riam pela vantagem; estavam alegres porque o inimigo sucumbiria, temendo passar novamente por aquele caminho. Eu também ria. Tinha achado um cano de ferro e distribuía golpes nos braços, nas pernas e na cabeça dos meus opositores. Deveria ter sido assim a luta no céu entre os anjos porque eram todos anjos antes da decisão de Deus.

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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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