Por Mariel Reis
Na saída do prédio, ainda no elevador, ela nota pela grade outro senhor — um vizinho — tomando sol, sentado numa cadeira. Ele percebe a chegada dela e a recebe com palavras amáveis e encorajadoras. Coloca uma cadeira ao lado da dele para que descanse enquanto procuro um táxi. Ela quer ir ao banco retirar dinheiro para o pagamento do anestesista e do instrumentador. Lança um olhar de inveja ao vizinho, apesar do esforço dele para não parecer em vantagem.
A última vez em que falei com minha sogra foi por uma chamada curta de vídeo. Perguntei se ela estava bem. Preparava-se para dormir. O quarto estava todo escuro. Só a luz da tela do celular iluminava o rosto, sem qualquer apreensão. Mas o ambiente sugeriu algo que não fui capaz de perceber, apesar do envoltório de trevas e daquela luz sobre o rosto como uma formação fluídica produzida pela convocação apressada do aparelho que intermediava nosso diálogo.
(A morte começou pela manhã. Talvez o correto seja dizer: a morte estava madura pela manhã, porque ela está conosco desde o nascimento. Mas tanto uma imagem quanto outra são lugares-comuns para gerar efeito poético, porque simplesmente se morre, sem explicação ou consulta. A comparação com a fruta a ser colhida é atraente e inútil. Dizer que a morte está conosco desde o nascimento é existencialismo barato. Morreu-se. Não há um deus em um guichê para atendimento.)
— Daria tudo para dar os meus passinhos — diz, deixando a companhia dele desconfortável. Ele sente que, em outra situação, estaria em perigo se o que tem pudesse ser retirado dele.
— Minha filha está muito tensa — ela me diz em outro momento, na cozinha do apartamento. A internação para a operação não estava longe, mas ela decidiu me falar sobre um sonho com a própria mãe. Não falou nada acerca do ocorrido, sabia apenas dos conflitos entre minha esposa e mim. Compreendia os fatos. De repente, numa confissão precipitada pela intuição das dificuldades vindouras, disse: — Minha mãe não me deu mais dois meses aqui. Fiquei triste. Logo agora que tudo parecia encaminhado. Corri para desfazer o amuo: — Dona Zefinha está com saudade? O tom brincalhão afastou por pouco tempo a contrariedade do aviso. Retomando: — Não fale nada com minha filha, pode ser bobagem e não quero preocupá-la.
Estou na rua, fazendo sinal para os carros de praça. Dois passam direto. O terceiro desacelera, abre o vidro e pergunta para onde é a corrida. Aceita porque é rápido: preciso buscar o resultado de um exame pré-operatório no bairro e as viagens curtas ajudam a fazer um dinheirinho enquanto espera. Avista a passageira de muletas, manobra e sobe na calçada para facilitar o embarque. Abro o portão do edifício. Ela, devagar, cruza o espaço e entra no automóvel. O motorista a cumprimenta; ela agradece a gentileza, enfatizando o próprio estado. Seguro a porta traseira, ouvindo a conversa dos dois. Ele repete o chavão: — Doença não escolhe.
Minha sogra tinha um caderninho no qual anotava todas as despesas com as quais lidei para me ressarcir quando possível. Diante da minha preocupação financeira excessiva, desejava me recompensar. Nas minhas discussões com minha mulher muitas vezes me referi ao valor com grosseria, mas com verdade, porque estava fazendo falta para outras despesas. Reprovei o comportamento perdulário da mãe dela, agindo com generosidade com estranhos sem auxiliar qualquer dos projetos familiares, pelo esgotamento econômico em que entrou. A minha contrariedade não anulou a minha boa vontade, apesar de afetar minhas disposições algumas vezes.
Estamos todos embarcados e a viagem começa.
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
