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Imitadores

Por Mariel Reis

Em um ponto isolado, certificando-me de que não havia mais ninguém, comecei a gritar. Não o tempo todo, mas com intervalos para resposta. Como em um diálogo. Durante o silêncio, parecia surgir no vento a voz de alguém — nunca a de um desconhecido, mas a de um morto. Não um morto qualquer, porque deveriam estar ocupados com os seus vivos. As vozes, alheias ao meu receio, diziam a quem pertenciam; mesmo distantes, montavam toda a ascendência para provar que não erraram o endereço, e só obtemos respostas dentro da árvore que nos trouxe até o presente. Depois abandonei o hábito: morar em prédios impede alguns ritos pessoais e o local sempre produz interferências.

As vozes não me abandonaram, apesar da interrupção imediata das conversas. Às vezes constrangem, porque as testemunhas perplexas percebem que há uma força circulante e invisível. Na minha sala de trabalho aconteceu, produzindo espanto em um grupo de alunos e na faxineira. A última relatou que, por trás da minha estante de livros, surgiu uma voz que não pedia ajuda nem contava segredo, apenas sustentava uma conversa constante, desprezando o interlocutor presente e exigindo a minha presença para o diálogo. Tudo não durou mais do que cinco minutos. Depois, a voz enfraqueceu-se como em agonia e desapareceu completamente. Eu atendia um grupo de alunos, orientando-os para certos autores de um período literário e correlacionando-os com escritores estrangeiros. De repente, um vulto correu a olhos vistos, pareceu aboletar-se perto da janela e começou a discorrer sobre o tema em um autor inglês. Prestamos atenção ao fenômeno, que durou enquanto minha palestra lhe servia de contraponto.

Nesse momento, em casa, digo à minha mulher que preparo o bife para o almoço. Escuto: “Está bom”. Mas não vinha do cômodo em que ela estava. Apareço à porta, perguntando se ela falou alguma coisa comigo, e não me surpreendo com a negativa. Não é a primeira vez. Onde estão tais imitadores? Por que roubam o registro vocal de outro? Em que tipo de solidão vivem para desejar o simulacro? Inspeciono os cômodos sem êxito. Não tenho receio, mas imagino o compromisso renegado e a inquietação daquelas vozes, e a importância dos loucos em alimentá-las no frenesi dos seus delírios. Não lhes bastam as esquadrias de alumínio, as copas das árvores e os cantos das paredes em que assobiam; desejam o calor das bocas, a vivacidade, mesmo tresloucada, do debate, e o próprio horror à indiferença. Às vezes, sem um homem por perto, provocam os cães, não só os de rua. E lá está o bicho latindo e perseguindo o incorpóreo. Não é privilégio humano.


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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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