Por Mariel Reis
O meu amigo Carlos, na época livreiro, resolveu sair com a namorada. Decidiram-se por uma churrascaria. Lá estiveram comigo, mas parece que não pude reconhecê-los ou estava atarefado, porque era um rodízio e eu trabalhava freneticamente. Segundo Paloma, interesse amoroso do meu amigo, fui atencioso, observei atentamente o pedido dos cortes, além de ter-me divertido com a menção ao meu sósia, provando e aceitando ser fotografado, como se tudo pudesse ser uma coincidência ou um modo de o jovem casal ter uma memória curiosa juntos, apesar do outro exibido na fotografia com semelhanças nada desprezíveis. Sorri e, terminando meu trabalho naquela mesa, corri à churrasqueira, continuando a servir. O restaurante só fecharia à meia-noite.
Estou atrasado para o trabalho. Desço na Central do Brasil, observo o painel com os horários de saída dos ramais e decido por um que não me deixaria no meu destino final, mas em um entroncamento onde conseguiria vantagem para tomar o trem correto. Caminhei dois ou três vagões e escolhi um lugar sem olhar em torno. Abri um livro, mas um olhar provocador e divertido desafiava minha concentração. Olhei para a pessoa, desconhecida, que retribuía sem medo o meu olhar. Ela se aproximou, sorriu, fixou meus sapatos brancos, ajeitou o cabelo e disse: “Não tive tempo para lhe agradecer.” Não pude interrompê-la; pareceu sincera e só se calou quando citou a sala vermelha da unidade de pronto-atendimento onde a atendi, examinei e tranquilizei. Quando desci na estação intermediária, carregava comigo o mérito de alguém em quem me desdobrei, desprezando uma vida ordinária como se fosse um sonho mau.
Em uma das pilastras, examino um processo sobre o qual precisarei dar um parecer. Pertence à gestão administrativa anterior e tem vários nomes conhecidos. Não sinto a mão em meu ombro. É um homem de meia-idade. Sorri. Bom sinal. Pede para ajustar seu relógio. Deu sorte ter intimidade com o modelo; lembro-me da juventude e do orgulho de tê-lo no pulso. “Foi muito bom vê-lo. Você não está mais com barraca lá?” Não o contrariei; aleguei que não tinha mais tempo para o conserto de celulares, relógios e afins. Estava tratando da papelada da herança da minha avó e tinha interesse cada vez maior em baterias; inclusive, reabriria a lojinha e investiria nisso. Ele embarcou comigo — quer dizer, com o outro, o relojoeiro —, movendo-se em um lugar particular.
Quando escrevi sobre os três episódios em uma rede social, pareceu perturbador para um certo tipo de leitor, que reprovou minha atitude e aconselhou-me a buscar um padre, supondo uma ação demoníaca nas duplicações com testemunhas tão convictas da semelhança entre nós, porque não era possível falar em cópia sem a idade das personagens. É o tipo de ilusão do diabo. O argumento persuasivo tinha o problema da arrogância e o dispensei. Fui visto pela última vez pelo meu cunhado no metrô: estava corpulento, com uniforme de manutenção e conservava traços nítidos da minha aparência. Compartilhei a fotografia com meu amigo Régis Trentim, pedi que a submetesse à sua esposa, e o veredito dela foi que o sujeito poderia assumir a minha identidade.
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
