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Bruna

Por Mariel Reis

Estou com Bruna na praia. Ainda é inverno. Minha esposa e filhas estão distantes de nós. Não há sol, sim mormaço. Estou velho. Ela contraria minha afirmação. Afirmo que sinto dores inexplicáveis mesmo com exercícios e caminhadas constantes. Nada está quebrado. Tudo está se quebrando. Ela gosta de mim. Podia estar em uma companhia mais atlética ou mais ameaçadora, preferindo a minha. É uma menina, penso, enquanto todos a colocam noutra categoria: a de símbolo sexual. Olho para as meninas correndo na praia de areia cinzenta, com um vento forte, mas não agressivo. Recebo a pergunta: – Já comentou com alguém? Retruco: – Sobre o quê? Ela ri. Penso em meus dois amigos: Fernando e Evandro. Ela, por baixo dos óculos de sol, inúteis, servindo só ao charme, ri outra vez. Ele é chato assim mesmo? Agora, a pergunta é para minha esposa e ela não perde a oportunidade: – Bruna, a mãe dele tentou me avisar e eu não escutei. Devo ser bastante irritante. A hora do almoço se aproxima. Levanto a canga para as trocas de roupa. Eles já fotografaram tudo. Amanhã deve estar em algum portal. Caminhamos para o calçadão, cruzamos a pista em direção ao restaurante.

Sem autógrafos, sem fotografias. Passo pelo antipático porque ninguém pode almoçar comida fria. Minha mulher repreendeu minha atitude: – Ela tem idade para decidir quem pode vir à mesa e quem não pode. Bruna se diverte. E aproveita a cancha: – É verdade. Você não é meu pai. O coro aumenta com as minhas filhas. Os garçons, constrangidos, afastam-se porque reajo grosseiramente e passo a comer em silêncio, com a cara fechada. Ele ficou aborrecido, diz uma delas. A minha rispidez só me permite grunhidos. Bruna pousa a mão em meu ombro: – Sou a filha mais velha, não é? Olho e replico: – De outro pai. Podem receber quem quiser. Já não estou aqui. Duas ou três pessoas enchem-se de coragem, pedem para se aproximarem com seus celulares e fazem uma selfie com a bonitinha. Saem felizes. Desistiram do Leblon? Ela retoma a conversa entre nós. Minha esposa relata as dificuldades de custo, a entrada alta demais e o meu orgulho. Por que não me pediram? Cobro menos juros que o banco…. E volta o olhar na minha direção. Levanto para pagar a conta e minha seriedade impede gozar a alegria do ambiente.

Daqui vou a pé para casa. Primeiro quero ver vocês embarcados no Uber. É uma caminhada segura? O único risco são os fotógrafos. Minha mulher chama o transporte. Ninguém fala sobre trabalho. O que é um alívio. Não tenho que ouvir um desfile de nomes sem significado, mexericos indesejados, com meu asco, ouvindo: – Ele detesta tudo isso. Tenho vontade de voltar a atuar. E toda a ladainha sobre textos, diretores e montagens. O carro se aproxima, olhamos a placa e nos certificamos a respeito do motorista. Na despedida, Bruna agradece outra vez. Só assim para ele levar a gente na praia, menina. Sou o último a entrar no automóvel, ela pergunta sobre as minhas dores. O rugido marinho se mistura às minhas palavras: – Só estão começando…

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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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