Começo com um pedido controverso: procure levar a literatura do Mário Prata a sério. E você sabe que não estou brincando. Só não sei se o acento agudo existe ou se inventei para tornar mais estiloso o apelido do autor. Agora, à moda espanhola. Mas eu gosto bastante dos textos dele. Quando estou cansado da literatura oficial, cheia de rapapés e salamaleques, retiro da estante, na verdade da mala, um de seus livros e volto a navegar tranquilamente pela vida. Não tenho culpa da gravidade da minha personalidade. Às vezes, é bom distraí-la de si.
Por que não escrevemos novas orelhas para os livros das nossas estantes? Imagine apresentar um por um para um futuro leitor, como se estivéssemos incumbidos de seduzi-lo. Não seria uma excelente perda de tempo? A imaginação trabalharia melhor pelo esforço e poderíamos torturar nossos amigos, pedindo que criassem novas capas e falsa fortuna crítica. A brincadeira poderia virar um sítio e se espalhar. Pense nisso e me responda. O melhor do envelhecimento são os novos brinquedos. Não procurei o ortopedista. A dor no tornozelo é constante. Não está quebrado ou luxado. Uma insinuação persuasiva do tempo.
A minha nova obsessão são os relatos fantasmagóricos derivados da Alexa e dos sensores do automóvel Tesla. Escuto com atenção os perfis que tratam do fenômeno, inclusive anoto as histórias com a esperança de reuni-las em um livro. O que não quer dizer muito. Lembra-se de que pensei em fazer o mesmo com os relatos de policiais sobre ocorrências sobrenaturais? São as minhas últimas curiosidades. Agora, se Edgar Allan Poe tivesse contato com os casos, o que sairia de sua cabeça? Não tenho visto a sua irmã. Ela está bem? Como posso mandar os livros para você? O que mais posso escrever? Ser fútil ajudaria muito, porque não faltaria assunto.
Retorno ao Pratinha. Diário de um magro permanece em forma. A notinha a respeito, classificando o spa como uma ilha das privações, ainda impacta. Apesar do tom humorístico do texto, refletimos acerca de um lugar estranho em que nos internamos para perder peso. Parece antinatural. E é. Evolutivamente. Se um homem das cavernas caísse em um local assim teria certeza de que estaria no inferno. Quando lhe servissem o cardápio insosso e invariável, nos primeiros dias se tornaria um canibal fervoroso, enxergando nos outros pacientes sua caça, identificando-os com bisontes – não à toa. Ninguém deveria levar uma vida miserável assim, não por conta própria. É um retrato divertido do emagrecimento. A forma fragmentada da narrativa recorda tanto Machado de Assis quanto um almanaque.
Dê uma chance ao Mário Prata. Meu corretor impede a grafia sem acento. A mãe do escritor era prima de Campos de Carvalho. Quer mais?
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
