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Em torno de Rabindranath Tagore

Por Mariel Reis

Comprei nesta tarde o livro de contos Batom no dente, de Maria Helena Mossé, com orelha de Tatiana Salem Levy. Ao lado dele estava O príncipe e outras fábulas modernas, de Rabindranath Tagore, prêmio Nobel do ano de 1913, se não estou enganado. Você sabe que fui levado para muitos anos atrás quando o escritor indiano apareceu em minha vida. Não é uma lembrança solitária, porque envolve um amigo mais velho que descobri em um período difícil de minha vida que se chamava João Ribeiro de Almeida, zelador do colégio Hilton Gama, perto da casa. Ele também era poeta. Gostava de teosofia: dos livros de Helena Blavatsky. E só. Talvez Annie Besant seja herança dessa época. Fiz o contorno para mostrar que por conta da inclinação começamos a frequentar a Corrente Universal da Paz, no Centro, fundada pelo jornalista Luiz Goulart. Um local de caráter místico e religioso com pequenas publicações sobre ascensionados e a de Tagore estava entre os muitos perfis escolhidos. A minha idade? Catorze, quinze anos.

Depois disto, a memória avança um pouco mais e chega ao livro O casamento e outros contos, traduzido pelo poeta Leonardo Fróes, que escrevera sobre Fagundes Varela, um poeta romântico sem a visibilidade de seus pares, apesar da qualidade – e atualidade – de sua poesia. Logo busquei o contato do tradutor para falar do impacto da leitura e da introdução escrita por ele. Não demorou a resposta do poeta. Primeiro, a alegria pelo interesse no autor esquecido, mas dos mais importantes, segundo suas palavras, além da discussão da proximidade daquele universo com certa filosofia desenvolvida ao longo da vida, retirada e meditativa, em contato com a natureza em um sítio na região serrana. O nosso contato dependia bastante do correio, depois com a internet tornou-se mais fluido e mais fácil. O ermitão de Petrópolis, como eu o chamava, viria a escrever o prefácio de uma plaquete de poemas feitos para minha esposa. Hoje, alguns poemas ainda parecem em forma, colhendo elogios de gente como Ronaldo Costa Fernandes e Ronald Augusto. Eu tinha dezesseis anos e alguns interesses louváveis como pode ver.

Não tenho nenhum poema de João Ribeiro de Almeida para dividir com você. Poderia pedir a um ex-amigo para verificar, mas ele compreenderia mal, principalmente porque pedi que ele tratasse da própria vida porque durante algum tempo tentou uma reaproximação com meus irmãos depois de ignorá-los por anos. Tentei uma vez a reconciliação, durou alguns encontros e demonstrações de interesse de minha parte, dividindo com ele aquilo que eu estava fazendo, naquela fase o teatro era o meu interesse, não deu muito certo a interação. Agora, como tanta água passou embaixo da ponte…. Mas ele provavelmente teria o poema, permitindo-me apresentá-lo a você. É difícil evitar falar de minha pobreza e dificuldade enfrentadas para estudar, inclusive a falta de vestuário. Você recebeu a minha fotografia? A calça jeans larga pertenceu a um tio, sem cinto a segurava com um barbante, a camisa também grande e os tênis maiores que os meus pés tinham sido doação do senhor Ribeiro vindas do filho com um metro e oitenta. O visual patético inspirava compaixão nos outros. Foi o mais perto que estive de Carlitos de Charles Chaplin.  Eu tinha dezenove anos, entrava na faculdade, tinha esperança e acreditava nos homens de boa vontade.

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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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