São muitas anotações, quase todas sem sentido de conjunto, dificilmente poderei reuní-las. Só com bastante alteração, isto é, com prejuízo à autoria, realizaria alguma coisa com sucesso, mas seria melhor para o cartaz ter somente o nome da autora estreante. O que você me diz? Ela mexe nos papéis, anda de um lado para outro, consulta a si mesma e desiste da resposta, apesar de pronta. Não tenho interesse em fazer tudo por você. Algumas coisas são muito pessoais, completo a minha pontuação. Sugiro que continue escrevendo sem muita cobrança, aconselho algumas leituras e alerto sobre o horário de almoço. A empregada, pouco depois, chama-nos para a mesa.
Estou sentado no parque com a irmã da personagem. Ela protestou contra minha atitude, perguntando o motivo da minha crueldade, obrigando a minha personagem ao esforço da escrita sem benevolência, sem a certeza de sucesso. Mas não posso ajudá-la assim. Muitos acreditam que artistas são farsantes e não irei aumentar mais uma desconfiança assim. Levantamos para dar uma volta. Não quer escrever uma peça de teatro, quer ter uma vida normal. Busco encorajá-la a perseguir as coisas simples, como se fosse fácil. Novamente, o aplicativo de mensagens recebe uma notificação. Li a sua crônica. Não cansa de perder tempo com lembranças sem significado? Não é o extravagante o que as pessoas desejam? Digito: É importante frustrá-las. Quanto mais desinteressante, melhor para exercitarem o cérebro. O que está escondido atrás da banalidade do texto? É preciso fazê-las desconfiar de que não viram tudo. Do outro lado, ela responde: Pode devolver minha maninha? Tiro uma selfie com o objeto de ciúme e voltamos para a casa.
Por que nada acontece nas suas crônicas? Nisto estávamos na cozinha, pedi para ela prestar atenção ao redor e em nossos atos. A vida é comezinha. Não é possível ter grandes papéis sempre. As pessoas vivem discretamente e inconscientemente. Os escritores cismam que há mais lá do que é visto, procuram com tanto cuidado e terminam encontrando algo que todos os envolvidos sequer suspeitavam ter produzido, supondo que são agentes de suas ações. Porque nós atribuímos o sentido àquilo sem escândalo ao que possam dizer todos os gestos reunidos. Ela está impressionada pelas minhas palavras, não estava habituada a me ouvir falar assim, sem interrupção com tanto espírito. Volto aos papéis espalhados na escrivaninha, com diálogos e esboços de personagens, peço um esforço para ligá-los em um projeto mesmo frágil para a leitura em nosso próximo encontro. Ela concorda com uma condição: não quer virar piada. Ninguém pode ser mais ridículo que o homem, porque rendido à sua nudez, não atravessa do banheiro para o quarto sem a proteção da toalha, arremata zombeteiro um ouvinte indiscreto lá da sala.
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
