Na nossa última conversa, pedi para que respondesse sobre o livro que mudou a sua vida. Muitos amigos se decidiram por um autor de ficção, mas o que pode ter de realidade em uma abstração para mover a engrenagem íntima de alguém? Quando são livros gerados pela reação à realidade, é compreensível porque todos nós, dependendo da própria inteligência, respondemos mais ou menos bem à provocação do instante. Porém, você lembrou muito bem do quanto estamos doentes ou dependentes. Tanto faz o termo, como você bem diz.
Na última vez em que lhe escrevi , recebi a notícia de que você está internado. O tratamento de hipnoterapia não serviu como imaginado, nem mesmo acompanhado dos remédios. Soube pela sua irmã que você continuava a escrever, o que é sempre bom, porque o tenho na conta de um escritor competente, principalmente porque cataloga seus monstros com desenhos e verbetes. Um trabalho parecido com o realizado pelo escritor argentino Jorge Luís Borges em O livro dos seres imaginários. O problema é a perturbação física do contato e das sugestões. Você recebeu Retratos mínimos? Mandei um exemplar pela sua irmã. O meu editor André Lisboa pediu-me para escrever uma crônica por semana, sem a rigidez do gênero. Senti-me profundamente sozinho nesse exercício. Quando escrevo conto tenho a melhor das companhias mesmo que a ignore. E se a sua voz representar perdição, será pela beleza.
Volto outra vez ao tema abandonado no parágrafo de abertura. Fiquei feliz que Confissões ainda lhe acompanhe porque é um livro útil apesar de sua distância do santo, como você enfatiza. Mas, nas reflexões de Agostinho, há o material da angústia que se sobrepõe, em meu julgamento, ao tema espiritual propriamente dito. Em meu caso, Perto das trevas e Rasgando a cortina disputam a primazia. Se o livro de William Styron trata de um problema interno com reflexos no exterior, o de Wladimir Pomar discorre de um problema exterior com reverberação anos interior e ambos tratam de uma exaustão metafísica. Contudo, em um deles, como você observou bem, o foco do Mal está só no indivíduo – o que é uma destruição lamentável como é toda morte -, porém, no outro, a desordem é maior, comprometendo o mundo visível, portanto é mais nocivo, reside nisso o motivo da minha escolha.
Recentemente, li as cartas de Arthur Rimbaud em busca de uma resposta à minha turbulência interior. Tenho mantido um regime de oração e penitência, cuidando para que a severidade não prejudique a minha saúde, além da conversa constante com José Tolentino de Mendonça, quase uma direção espiritual. A minha rebeldia impede minha submissão absoluta. Ele é um homem compreensivo com as minhas fraquezas. A proximidade dos cinquenta anos não diminuiu toda violência e sensualidade da qual sou vítima, embora a palavra não traduza bem a relação na qual estou. Pratico luta marcial, procuro trabalhos pesados, sem cansar a besta. À noite, ainda, quero fazer sexo com a minha mulher como se nada tivesse acontecido durante o dia. A terapia não adiantou nada. Comecei uma pesquisa independente sobre meus antepassados onde tenho encontrado ressonâncias curiosas. Preciso sossegar o facho, meu amigo. Sua irmã leu minhas crônicas, fazendo o comentário acerca do estilo telúrico dos textos, prometo examinar o apontamento dela.
Um abraço,
Mariel.
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
