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A espera

A praia está vazia. Não desejava estar à beira-mar, mas não houve escolha. A noite desceu não faz uma hora. Muitas pessoas caminham pelo calçamento, o mar fala coisas incompreensíveis e não vejo sinal dela. Não poderia ter marcado em um restaurante? Questão de privacidade. Não há cabines. Um possível investimento. Todos observam e são observados, apesar do aparente isolamento das mesas. Não se pode reagir ao que é ouvido ou todos imediatamente olharão para você. Escuta-se igualmente um pedido de noivado ou uma promessa de morte sem se mudar expressão ou o tom de voz. Sempre encontro um motivo para distrair a cabeça enquanto espero. Às vezes, surgem pensamentos interessantes e lucrativos caso existisse verba para se apostar.

O banco de pedra está frio. Sinto que ela se atrasará, pode estar ainda no banho, escolhendo roupa, ajeitando o cabelo ou decidindo o sapato. Lembrei-me do nosso primeiro encontro. Como foi difícil convencê-la de que não tinha nenhuma atração por ela ou que sabia de cada ponto de sua carreira. Ela pareceu decepcionada quando constatou que o meu interesse era pelo trabalho, mas não desistiu. Durante nossos encontros iniciais, sempre tinha uma amiga consigo — jovem, atraente e falante — que evitava que fosse obviamente sedutora para não parecer desesperada por provar seu ponto: a minha vulgaridade. Quanto mais crescia a minha indiferença, mais ela redobrava seus esforços. Um dia, acompanhando-a em um evento, ela distraiu-se do próprio objetivo, esqueceu-me em um canto e foi conversar com os amigos. Sem perigo, relaxei, abri a carteira e retirei a fotografia de minha esposa. Ela aproximou-se sem que eu percebesse, flagrando-me na contemplação.

Meu celular vibrou no bolso do casaco. É uma mensagem engraçada justificando o atraso. Respondo com um emoji. Digito: Estou aqui. Outra notificação. Surge uma fotografia dela com o conjunto de moletom verde. À minha linha escrita desperta a canção: Amigo, estou aqui. Parece um bug divertido e frequente comigo. Estou em uma conversa, alguém fala uma ou outra palavra, alguma música ressuscita em minha mente e a cantarolo. Às vezes, começo a rir sem motivo por conta da frase musical sugerida, despertando a desconfiança do interlocutor que quer logo me despachar ou compreender o motivo para participar da súbita alegria. É bom quando acontece a última coisa. Vejo-a na ponta mais distante do calçamento, caminha com a cabeça baixa, as mãos escondidas nos bolsos e sinaliza com um meneio de cabeça. O mar insiste no diálogo de rugidos, de avanços e recuos sobre as pedras e a areia. Não compreendo sua exigência como marinheiro algum terá compreendido. Ela senta-se ao meu lado, contrariando a minha natureza, e protesta diante de toda catástrofe, abrindo um sorriso, provando que é quase feliz.

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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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