A nação atravessa uma crise de representação que já não parece se resumir à velha gramática da política: corrupção, fisiologismo, polarização, descrédito dos partidos, personalização do poder. Tudo parece se desintegrar em uma situação amorfa, confusa e vazia. A política continua a mobilizar afetos e a produzir disputas eleitorais carregadas de conflitos, contudo quando se observa o futuro de seus movimentos parece não haver uma imagem convincente de futuro ou, pelo menos, uma imagem desejável do porvir. Discute-se quem deve governar; quase não se discute qual país ainda somos capazes de desejar.
É nesse ponto que Ocidente sem utopias, dos filósofos italianos Massimo Cacciari e Paolo Prodi, oferece uma chave de leitura para entender um pouco do nosso país. Os autores identificam no declínio da utopia não apenas o desaparecimento de grandes ideologias, mas a perda de uma tensão constitutiva da política moderna: aquela entre o mundo existente e o mundo possível. Quando essa tensão desaparece, a política deixa de ser promessa e torna-se mera administração.
No Brasil, a crise da representação pode ser lida sob essa perspectiva. Um representante eleito já não aparece necessariamente como aquele que interpreta o presente à luz de um projeto coletivo, como agente da transformação do estado de coisas, É muito mais um gestor de interesses imediatos, mediador de conflitos ou porta-voz de identidades. A eleição não é mais a escolha entre futuros possíveis e passa a significar, muitas vezes, a escolha de quem administrará a realidade existente, o caos instalado.
Daí o paradoxo: quanto menos a política oferece horizontes, mais precisa fabricar urgências. Cada eleição converte-se em batalha decisiva. Um adversário se torna ameaça e um governo é visto como último dique contra o desastre. O projeto cede lugar ao ressentimento, e o futuro, à nostalgia. Quando já não sabemos para onde ir, procuramos recuperar aquilo que imaginamos ter perdido ou destruir aquilo que identificamos como causa da perda.
O Brasil conhece particularmente bem esse esgotamento. Durante décadas, desenvolvimento, modernização, justiça social e democracia nomearam projetos divergentes, mas partilhavam uma crença: a de que o país poderia tornar-se outro. Hoje, a desconfiança diante das grandes promessas parece uma forma de maturidade. Ela pode esconder uma renúncia mais radical: a incapacidade de imaginar.
Cacciari e Prodi não propõem o retorno às utopias totalizantes. O século XX ensinou que transformar o futuro em certeza pode converter a política em instrumento de opressão. O problema é que, ao expulsarmos a utopia, podemos transformar o presente em destino. E um presente tomado como inevitável tende a conservar, sob o nome de realismo, as relações de poder já existentes.
O desafio brasileiro talvez seja recuperar não uma velha utopia, mas a própria capacidade de projetar. Uma utopia democrática, consciente de seus limites, sem paraíso final nem promessa de eliminar o conflito. Uma política capaz de perguntar novamente não apenas quem governa, mas para quê; não apenas o que é possível agora, mas que futuro merece tornar-se possível.
Um Brasil sem utopias não seria necessariamente um Brasil mais realista. Pode ser somente um país que perdeu a linguagem para desejar a si mesmo. E talvez a crise da representação comece exatamente aí: quando a política já não consegue representar um futuro comum.
