Hoje, a fotografia do meu tio Daniel foi compartilhada no grupo da família. Ele tinha um rosto, uma história, acidentada, mas dele, um corpo, com muitas marcas, exclusivas da vida escolhida por ele. Pode não parecer, mas ter tudo isso é o que faz uma pessoa. E meu tio gozou deste estatuto, suscitando história e memória. Meus outros tios também compartilharam desse privilégio. Mas a fotografia era de Daniel, e não havia como substituí-la pela de Danilo, Josué ou outro de meus tios, porque alguns deles não chegaram até nós, tinham as feições restritas e as vozes perdidas no tempo.
Numa conversa com a minha filha, afirmei a sorte de Daniel por mais que ele próprio viesse a discordar, apontando as circunstâncias daquela vida: o tratamento recebido de um pai cruel, o abandono em que viveu após a morte da mãe e o ingresso precoce no trabalho, vendendo picolé no trem com seu irmão, Danilo. Mas ele tinha um corpo no qual atravessou todas as experiências prazerosas ou dolorosas. O namoro com Ivanir com certeza está entre as experiências prazerosas, mas coisa alguma tem natureza absoluta, digo, vem com uma grande concentração de delícias, porque a nossa queda do paraíso não permite um gradiente assim, prometido apenas na reconquista do Éden. Nenhum de nós estará vivo para saber se será um compromisso mantido.
Não é o sentimentalismo que me obrigou a falar de Daniel. No grupo de conversa, meu irmão Márcio lembrou do lado negativo dessa convivência: a invasão da polícia, por conta do meu tio, à nossa residência. É impossível esquecê-la em razão da marca emocional indelével que ficou em todos nós e também no responsável pela incursão policial. Não tenho dúvida do sofrimento dele na ocasião, e ainda depois. Talvez, em termos diferentes daqueles exigidos por qualquer de nós, ou todo angústia. Quando Daniel foi capturado, começou uma onda de solidariedade, depois Danilo foi visitá-lo, já que eu não tinha idade para entrar na carceragem da Polinter, e disse: — Os policiais deixaram ele quase tão irreconhecível quanto o meu pai. À época, atribuí o comentário à perturbação de juízo de meu tio, portador de transtornos mentais. Naquele dia, Benedito chegou alterado do trabalho. Minha avó cozinhava com os filhos espalhados pela casa e pelo quintal. — Neonice, pode me dizer o que eles fizeram de errado, cobrou meu avô. Minha avó preferiu o silêncio, antevendo toda a brutalidade. Benedito levantou-se da cadeira furioso, retirou o fio do ferro de passar roupa, trançado com as cores da pele de serpente, conforme minha tia Ruth, e não poupou ninguém. Daniel ficou todo lanhado, todo ensanguentado, ouviu-se a ordem inumana: — Um balde com água, Neonice, e o sal! Meu tio foi submetido à salmoura. A observação de Danilo não era um produto do delírio. Volto à fotografia, nesta está uma parte da história e naquela mesa em que ele estava sentado, mesmo que ninguém possa ver, estão meus outros tios, que não completaram a viagem, cedendo seus bilhetes da passagem aos viajantes que desembarcaram.
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).