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Sonâmbulo

Por Mariel Reis

Ontem, terminei a leitura de O pastor, de Frederick Forsyth. É a história de um jovem piloto que quer retornar para casa em uma noite de natal, mas uma pane elétrica no avião o deixa sem instrumentos de navegação, portanto em um voo às cegas. E para piorar, surge um denso nevoeiro que não lhe permite visibilidade alguma além da cabine e seu combustível está quase no fim. Desesperado, ele improvisa uma oração — não reza há muito tempo — e aparece, milagrosamente, outro avião para ajudá-lo em um pouso controlado em terra. Depois descobrirá que a aeronave de resgate e o piloto dela não existiam, sendo um fantasma dos céus. Eis o fantástico com o qual o jovem piloto resgatado naquela noite cruza. Até o fim da leitura não sabia bem o motivo de minha insistência no conto de aviação de Forsyth. Hoje, após uma conversa, ele se acendeu: a minha identificação com o navegar perdido na névoa. A única diferença entre nós é a intervenção da graça pela qual ele voltou à realidade e à vida, percebendo o extraordinário com mais facilidade, mesmo relutante. Não tenho a sorte deste aviador, tampouco a esperança do fim da neblina.

Em uma conversa, escrevo: – Então, leio constantemente para não ficar muito tempo a sós comigo, pela minha intensa perturbação interior. Nunca defini com tanta precisão a minha necessidade de leitura. Ela não é somente uma afetação intelectual ou fruição estética, é uma terapia sem o ranço dessa palavra, porque a maior parte do tempo, os meus pensamentos parecem agitados demônios arrastando-me da violência ao sexo. Sempre que julgo intenso o trânsito, costumo falar alto comigo mesmo e esforço-me para obrigá-los a um trabalho menos hediondo. Às vezes, o resultado é positivo, mas não é um desespero vigiar toda uma ação funesta, conforme uma psicanalista sugeriu quando resolvi abordar o assunto. É difícil o interlocutor admitir que não sinto dor alguma ou aceitar que sou agradável apesar de tudo. O avião é o meu corpo, o piloto é a minha consciência e a bruma é a imitação da realidade. Tento atravessá-la com o meu equipamento esperando chegar à torre de controle.

Milhões de diabinhos martelando, dizia Lupicínio Rodrigues em uma de suas canções. Talvez a razão da imagem utilizada no texto, mas em meu caso é a sensação do atroz, cuja descrição sintética pode estar sob o símbolo. Naquele avião, o instante da constatação da pane até o desfecho é o trecho em que a hesitação, o temor e a blasfêmia foram mais fortes em sua força de corrupção da consciência. Ele buscou resistir com os recursos que tinha, considerando o próprio fim com lucidez, lembrando as instruções em casos de queda e vítimas, preferindo local desabitado ou o mar na colisão. Alguns livros baratos podem servir bem para ilustrar um drama interior com o qual lidamos com frequência e, de repente, despertamos, descobrindo o gelo fino sob os pés e toda uma cidade sonâmbula nos observando submersa.

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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).