Você sabe que tem um entusiasmo estúpido em torno da alegria em nosso país? E um culto dos humoristas como se eles tivessem descoberto o jeito certo de levar a vida ou a fonte da juventude. As comédias são incompreendidas porque são uma espécie de tragédia pior que a tragédia real. Não é triste ver todo mundo caindo na gargalhada assistindo Aristófanes? Muito, mas o sujeito rastaquera não liga bem ao que está vendo e ouvindo, achando aquilo melhor que Racine ou Eurípedes. E a gente escuta: – Medéia não é horrível? Prefiro mil vezes estar aqui na companhia de Molière. O medíocre não percebe que Ebenézer Scrooge é um santo diante daquele outro.
Um escritor bem-humorado atrai muita gente. A nossa índole, triste, triste como dito pelo poeta Manuel Bandeira e corroborado pelo ensaísta Paulo Prado, quer a expansão da alegria, mesmo aquela mais cruel que toda a tristeza reunida da Copa de 50 ou das infinitas quartas-feiras de carnaval, porque a vida é amarga e pesada demais e o melhor carrasco sorri para nós enquanto mantém o machado suspenso sobre o nosso pescoço como o bom Abraão diante de Isaque. Você pode ver que a minha alegria é sombria demais para ser uma sombrinha no verão. Olhe só o trocadilho infame. Outro dia, em um cronista mais talentoso e competente, a descrição dos motivos para a felicidade era interminável, principalmente o primeiro deles: “acordar todos os dias e sorrir para a vida”. Não é uma cretinice? Mas é comovente. Não tenho nada contra gente cretina.
Imagine o sujeito acordar todos os dias sem folga durante toda a eternidade. Agora, imagine também acordar assim com todas as desvantagens naturais e conservar o bom humor. Primeiro, a calvície, depois a barriga, em seguida, a impotência e consequentemente uma múmia terá mais saúde que nós. Se devêssemos acordar todos os dias deveríamos ter o direito – infernal – de uma juventude impertinente, sem as virgens perpétuas se revezando na cama da gente pelo trabalho desgraçado do sangue nos lençóis, do escândalo da penetração, dos suspiros que podem levar à ejaculação sem a consumação, sem o delicioso pedido de “só a cabecinha”, que se repetido mil vezes brocha o melhor reprodutor pela previsibilidade. Quanta gente preferirá uma crônica assim, leve e sacana, que às outras macambúzias?
Sempre lembro o maldito psicanalista: – Nós somos melhores na superfície. E sou assombrado pela imagem de um lago congelado, mas com um espelho de gelo fino demais para os patinadores que terminaram afogados sem aviso. É o retrato de Dorian Gray em um sótão: a beleza e a imortalidade são garantidas pela estranha e irreconhecível criatura do quadro. Não é assim com a nossa alegria?
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
