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Incidente

Por Mariel Reis

Estamos parados no posto de gasolina. Na loja de conveniência, todos os olhares estão voltados para nós dois. Devem saber que não sou um novo interesse amoroso. Ela reage com risos e toca com o dedo indicador a minha testa:

— Não é dos carecas que elas gostam mais?

— Mocinha, hora de levantar acampamento.

Levanto-me rápido. O corpo elástico ainda impressiona. Estico as mãos e disparo:

— Agora você dirige, porque meus nervos estão em frangalhos.

Recebo uma ligação.

— Bruna, tudo bem? Amanhã, às dezesseis, estou livre. Pode me passar o endereço?

Anoto. À entrada, o segurança quer saber o motivo da minha presença. Ela esclarece tudo e entramos. Muita gente. Ela grita: a música alta não permite um tom de voz adequado. Abro caminho até a área vip. A responsável observa a credencial, relaxa, mas pede minha identificação junto aos promotores do evento.

— Não demorará muito. Por favor, seus dados.

Ao meu lado, um segurança me olha entre divertido e surpreso, aproxima-se e diz:

— Resolveu mudar de ramo? Ainda treinando com o Vander?

Logo recordo o nome dele, cumprimentando-o:

— Não mudei de ramo.

Aponto para a mocinha. Ela dá um tchauzinho. Apertamos as mãos e volto ao batente.

O número de pessoas aumenta. Alguns grudam-se nas grades, pedindo fotografias com as estrelas do evento. Inclusive eu tiro um sarro, levantando os braços e soltando gritinhos histéricos. Bruna se diverte. As colegas perguntam sobre mim. Retomo minha postura depois da performance, mas ela já tinha sido flagrada seduzindo gente indesejada.

— Tudo bem? Não pude deixar de ver que você atraiu a atenção dela. Se fosse comigo, não desperdiçaria.

Mirei a figura: jovem, alto, boa fisionomia. Não parecia agressivo.

— Você é sortudo — despediu-se e foi se unir a um grupo do outro lado do salão.

Depois de duas horas, nosso compromisso havia terminado. Seguimos para o estacionamento. Não havia outro caminho além do salão, agora mais vazio. Restam alguns gatos pingados dançando e o grupo no qual estava a figura. Ela destacou-se rápido dos amigos, caminhando em nossa direção, com alguma coisa na mão. A iluminação não permitia ver o que era. Podia ser um piloto para autógrafo na camisa ou…

Interrompi meu pensamento. Segui ao encontro dela, mirando o braço com o objeto, aplicando uma torção e uma chave de braço, levando-o para o chão. Logo chegou outro segurança, retirando-nos da cena para outro ambiente.

— Tudo bem. Dirijo. Você não precisava ficar nervoso. Agiu com firmeza para manter a distância entre um possível agressor e sua protegida, mas era um piloto. E compensei bem o rapaz, que compreendeu o mal-entendido. Não se preocupe. Para um homem de quarenta anos, até que está em forma. Relaxa.

Apoio a cabeça no painel e reflito sobre a minha precipitação. Deveria esperar o braço ser esticado, mesmo com o risco.

Sinto a mão dela nas minhas costas.

— Não estou com coceira — logo corto.

— Grosso, grosso! Adoro.

O trânsito torna-se pesado. A pista contrária, livre, como se o acesso ao passado estivesse ao alcance da mão e as três últimas horas fossem suficientes para desfazer o constrangimento.

O toque familiar do celular.

— Atende, por favor, Bruna.

— É a sua mulher (Pausa). Ele não pode falar. Está se punindo por quase ter quebrado o braço de um sujeito. Não, não deu polícia. Ele é sensível. Um poeta.

— Pode parar de me sacanear?

. . .

Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).

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