Por Mariel Reis
Dificilmente, poderei recolher das fotografias uma história completa do menino parecido comigo que atravessa os retângulos acompanhado da irmã. Talvez fosse mais fácil recolher a trajetória de minha tia, responsável pela nossa presença nesses eventos sociais da infância, resumidos na palavra festa, mudando somente sua dimensão e o homenageado. Estou lá, em uma festa de rua, com um macacão jeans, segurando a mão de Marise em um vestido com motivo floral. Estamos em uma das praças perto de casa, as barracas se multiplicam por ela, naquela versão, conversam, ao fundo, Ozita e Albano, dirigentes da associação de moradores, a Amape. Não é possível ir além disso, portanto, retomo outro caminho, paralelo à lembrança.
O caminho para a minha escola primária – Otávio Kelly – passava pela praça. É natural que na minha alfabetização, tentasse ler o que estava escrito pelos muros, embora algumas palavras possuíssem uma conformação diferente da manuscrita, não se encaixando na letra cursiva ou bastão. Mas a palavra pintada em letras quadradas no costão de cimento do passeio permitia que meus olhos tropeçando a lessem e pronunciei a sigla da associação de moradores do bairro. Uma primeira leitura carregada de sentido social, mais tarde, diria que tinha caído direto no realismo soviético. Uma parte de nosso destino está assinalada em palavras soletradas distraidamente na infância. Naquela época, não imaginava a minha ligação com a política, menos ainda com a maçonaria, ainda que sofresse a ronda dos dos signos. O percurso não permite mais que a recordação avance sem repetição excessiva.
Uma grande árvore folhuda próxima à escadaria da Ênio servia de entreposto para a troca de sapatos com a minha irmã. Tínhamos apenas um par e o utilizávamos para ir à escola. Seguia descalço até o ponto de encontro e lá ela o tirava e voltava descalça para casa. No breve percurso até o local, a riqueza tomava a forma de uma sapataria, com diversos modelos de tênis, todos para pronta retirada, porque naquele tempo, algumas marcas precisavam ser reservadas e retiradas depois na loja. Às vezes, vestido com o uniforme, a calça de tergal e a blusa branca com bolso com emblema escolar, passeava com minha mãe pelas lojas de departamentos apenas para olhar. Talvez o primeiro treinamento para contemplar os objetos, exercício doloroso pela contenção do desejo e consciência da escassez. Atingido pela cegueira, revi minhas visitas às lojas, os exames das superfícies e das formas. Nesse ponto, a reminiscência se esgota, abrindo passagem à outra….
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
