Anteontem, sonhei com a minha bisavó com quem não tive qualquer contato. Ela morreu na década de sessenta e nasci nos anos setenta, portanto, estávamos separados doze anos temporalmente. As informações a respeito dela eram vagas, ex-escrava, semita, negra e mãe do meu avô, que não falava muito sobre a sua história. Mas Emília Maria Soares, a bisavó, surgiu-me, acusando ter sido subtraída da árvore familiar, culpando o filho pelo apagamento. Logo verifiquei o óbito do meu avô, constatando a discrepância do sobrenome, depois procurei uma de minhas tias, Ruth, para tirar a limpo toda história ignorada por mim. Meu avô adulterou o próprio nome após o serviço militar sem qualquer motivo conhecido. O sobrenome Soares da Rocha foi riscado. E todos passaram a se chamar Francisco. Portanto, o meu sobrenome real seria Mariel Soares dos Reis ou Mariel Rocha dos Reis.
Minha mãe se chamava Maria Emília homenageando a mãe do meu avô. É o rastro discreto de sua existência, sem menção ao sobrenome. Uma nota à ancestralidade. Ela sabia pertencer ao clã das Emílias tanto que também transferiu à uma das filhas a marca que durou pouco porque está irmã morreu no distante ano de 1987 encerrando a ciranda que a envolvia, a mãe e a bisavó, sem ver o próprio rosto ou o dos outros. Acredito que se estivesse viva ficaria perplexa com a descoberta da sonegação do sobrenome familiar. É um milagre ter vivido tanto tempo sem problema judicial por conta da falsidade ideológica ou ocultação de patrimônio, se existisse algum caso a manobra tivesse o fim do ludíbrio do fisco, um ato nobre diante de um estado inoperante.
E por falar em minha mãe, novamente me deparei com a história do colégio Nossa Senhora da Paz onde ela estudou uma parte de sua vida. A escola, ainda ativa, está localizada no bairro de Rocha Miranda, próxima ao 9° batalhão da polícia militar bastante conhecido na região em que morei. Uma estranha coincidência: o parto desta irmã, já morta, foi feito em uma patrulhinha do referido batalhão. Durante muito tempo tive anotado os nomes dos policiais, mas as minhas agendas se perderam e a memória sofreu dano com o acidente vascular sofrido, impedindo a recordação. O que não me impede de expressar gratidão. Perdoem-me a digressão. Retorno à abertura do parágrafo, isto é, o colégio Nossa Senhora da Paz. Recebi diversas fotografias dos desfiles dos alunos pela rua Topázio, ainda não examinei todas, buscando o rosto materno, mas ele pode estar lá. Nesse colégio, Maria Emília recebeu uma bolsa de estudos no exterior do Ministério da Educação em um concurso de redação. Meu avô Benedito e minha tia Ruth foram testemunhas…
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Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).