Por Mariel Reis
As pretensões surgem depois do movimento começar. Ninguém pode atribuir sentido ao que não existe. É necessário caminhar em uma direção mesmo com o risco de não se voltar ao lugar do qual se partiu e depois apontar com pretensão todo o caminho conhecido, afirmando que a paisagem vista estava no roteiro, mas tudo isso nasce depois da leitura do primeiro livro. Só que ninguém fala que estava perdido ou extraviado por algum tipo de vaidade, fingindo uma natureza matemática, quando, na verdade, agiu sem planos. Foi assim que os livros entraram na minha vida. Eu não imaginava que seguiriam comigo por tanto tempo e me transmitiriam parte do mistério do homem confiada a eles pelos escritores.
Meu livro de histórias bíblicas entrou na minha vida através do meu avô. É claro que a intenção dele não era alimentar a minha imaginação para que eu me tornasse depois um escritor; tinha o objetivo da educação religiosa em primeiro lugar, mas não controlava a maneira como a minha mente processava aquelas histórias fantásticas. Serviu-me de entrada ao universo bíblico propriamente, em que as ilustrações desapareceriam, não auxiliando mais ao jovem leitor na formação das imagens sugeridas pelas palavras. E de lá para cá, estão na minha ficção muitas daquelas figuras: Jonas, Sansão, José de Arimatéia, entre outros. Tornaram-se meus personagens também, acredito que se orgulhariam do meu empréstimo e das novas aventuras que inventei. O brinquedo barato da fantasia era a ilha para qual escapava o pobre menino acompanhado de outro amigo cuja escola fora os desenhos animados, replicados depois nos bonecos e carrinhos com quem brincávamos. As variações dos argumentos aproveitados das animações foi uma oficina informal e inconsciente praticada por nós.
São as minhas duas lembranças mais antigas acerca da arte narrativa ou de ensaio de aproximação de suas ferramentas. Muitas pessoas melhoram bastante o começo humilde que tiveram, desejando parecer prodígios, construir uma lenda em torno de si, é uma tentação muito grande quando se tem ambição. Preferi contar com honestidade quase ingênua o princípio de tudo pelo meu avô e pelo meu amigo de infância, fazendo justiça aos dois responsáveis pela minha escolha: a ficção. Porém, não posso terminar sem mencionar a colaboração de outro parente: um tio. Ele tinha problemas mentais e seu devaneio se fixava em uma escrita ilógica que cobria muros e o asfalto, invocando seres imaginários e fantásticos. A longa convivência com a desordem discursiva e de elementos abriu caminho para o fantástico e uma sintaxe diferente. É a descrição mais direta dos primórdios da minha escrita e das fontes com as quais se relacionava, mesmo as histórias não possuindo um arquivo e estivessem sob a força do instante e do improviso infantil. Nessa época, o livro não possuía a primazia sobre a minha criação, mas era o suporte ideal para que ela se tornasse permanente e assim tratei com o meu destino mais vez.
Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
