Por Sérgio Souza
Quinze de maio é o dia da morte do meu pai. Um dia que, para mim, é impossível esquecer. Recebi a notícia sentado no vaso sanitário, talvez por uma mensagem de aplicativo.
Desabei.
Chega um dia na vida de um homem em que ele precisa decidir o que fará com a própria solidão. Eu já estava decidido. Naquele dia, porém, fui deixado irremediavelmente só.
Não há nada mais solitário do que um homem que olha para o mundo pela primeira vez sabendo que não tem mais um pai.
O difícil é acreditar em alguma coisa quando se está sozinho e não se pode falar com ninguém. Não entendi quando ouvi Lou Reed cantar, pela primeira vez:
You can’t depend on God / You can only depend on one thing. ou need a busload of faith to get by.
Mas não foi exatamente assim que Jesus se sentiu na cruz?
Todo homem que leva a vida a sério acaba vocacionado às minorias e à solidão.
Muito antes de partir, meu pai me transmitiu o legado da sua miséria: fez de mim vascaíno.
Não sei onde essa paixão nasceu. No fato de ele ser sócio? Nas páginas de esporte dos jornais? Em Roberto Dinamite atravessando a televisão como um rei? No hat-trick de Romário, em Nova Friburgo, em 1988? Ou naquela final contra o Palmeiras, em 1997, quando o velho tremia com um terço nas mãos, em sua última dança cruz-maltina? O médico já havia recomendado: afaste-se disso; gaste o coração com coisa melhor. O fato é que ela ficou.
O Vasco é uma ferida da infância.
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Sérgio Souza é tradutor, revisor e cronista. Vive no interior do Rio de Janeiro. Escreve sobre memórias, livros, música, gatos e a vida em família.
