Por Mariel Reis
Na primeira fotografia, estou próximo à mesa do bolo de aniversário. Minha cabeça parece flutuar perto do glacê branco, acredito estar na ponta dos pés, o meu pescoço esticado transmite a impressão de esforço do corpo inteiro. Atrás de mim, está minha tia com a minha irmã no colo, também ensaiando um sorriso para o registro, enquanto minha irmã está inquieta olhando para o chão ou para alguém fora do alcance. Há também um amigo com quem convivi na primeira juventude e a festa era de uma amiga, desconfio, por ela estar no colo da mãe e no centro da mesa com as duas irmãs. A única memória do instante é a imagem, não lembro do fato, do contato com aquelas pessoas ou se comi bolo e bebi guaraná. Na verdade, só sei que sou eu ali, com três anos, pelo relato dos outros. Para que lugar foram essas lembranças? Sou o meu próprio fantasma.
Na segunda fotografia, estou com um bibico feito de saco vazio de cimento branco. É uma referência ao meu avô. Sempre o encontrava assim no canteiro de obras onde trabalhava junto ao meu tio. A dignidade e a elegância conferida ao apetrecho, arrematado com um prego para ajuste à circunferência da cabeça parecia capricho de um chapeleiro inglês. Postei o meu retrato assim em uma rede social em dezenove de junho de dois mil e vinte e dois. Nesta data, na Colômbia, Gustavo Petro subia à presidência, investigava-se a morte de Dom Phillips e Bruno Pereira e o então presidente Jair Bolsonaro começava uma CPI na Petrobrás. Não recordo nota pessoal relevante – o que é positivo -, além da atividade interior que me levou à imagem com que abri o parágrafo. Meu avô construiu um dos salões do reino em Curicica, lembro-me de minha presença na obra, percorrendo impressionado o lugar, olhando admirado tudo o que nascia de suas mãos grandes e calosas. Minha tia soube também do feito não tendo relação direta com ele, recebendo relatos posteriores que confirmavam a história e somavam detalhes em relação ao projeto, desentendimentos acerca da execução e mesquinharia dos mantenedores.
Na terceira fotografia, estou ao lado da imagem da Virgem Maria na igreja de São Geraldo em Olaria. É a missa de um mês do falecimento do tio de minha esposa. Ele se chamava Nelson, mas todos o tratavam por Nelsinho. Se o santo da igreja lembrava-me do excelente livro O bêbado de Deus, do poeta Gerardo Mello Mourão, o tratamento dado ao finado remeteu-me ao personagem do escritor Dalton Trevisan presente no livro O vampiro de Curitiba. Tento reconstituir impressões apesar da distância no tempo, noto a minha camisa azul em acordo com o manto de Nossa Senhora – não foi intencional, a barba desgrenhada e o meu olhar buscando no ambiente alguma coisa desconhecida. Neste dia, conversamos bastante no transporte sobre a contingência da morte de Nelsinho: uma queda violenta do leito hospitalar, causando um infarto fulminante, com o agravante: estava amarrado à cama. O filho abriu um boletim de ocorrência para apurar a morte.
Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).
