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Livros e certos filmes

Por Mariel Reis

A presença de livros em filmes sempre chamou minha atenção, principalmente quando não estão naquelas produções em que são vistos como adequados. Por exemplo, a história de Emily Dickinson em que estão justificados. Não desejo que a citação se torne endosso cinematográfico, porque as ilações a respeito da poetisa neste trabalho servem à agenda cultural contemporânea e ao aumento da bilheteria – o que é uma ambição legítima – porque o pink money é um mercado a ser explorado, mas deveria unir a problematização da sexualidade à qualidade narrativa para expô-la, respeitando a contenção verbal característica de Emily Dickinson. Realizei uma pequena digressão para ilustrar também o uso inútil do livro como objeto cênico, servindo como anteparo à uma narrativa defeituosa, ainda que pertinente ao nosso tema.

Se o filme Além das palavras (2016) é o lugar certo para os livros, a leitura e as discussões literárias – circuito cult -, não corresponde ao desencontro desejado – circuito comercial – pela presença deles, os livros, em um filme. Por exemplo, em Appaloosa (2008), um western, a leitura e a busca da palavra correta é vital para Virgil Cole, interpretado pelo ator Ed Harris. Porém nunca sabemos o que xerife está lendo. Uma desvantagem para o espectador. Em outro caso, a franquia O protetor, começada em 2014, o personagem Robert McCall, interpretado pelo ator Denzel Washington, tem livros em sua casa e um programa de leitura, herdado da esposa morta. Podemos acompanhá-lo, no primeiro instante, com O velho e o mar, de Ernest Hemingway nas mãos. A história incomum de pescaria liga-se ao enredo em vários níveis. A analogia entre Santiago e Robert é um acerto, desaparecendo da saga pela mudança do romance.

A mudança da leitura de Robert McCall, saindo da novela do autor de O sol também se levanta para Miguel de Cervantes, é um erro e significa uma nota de otimismo mesmo para um homem morto. Ele não está mais embalsamado pelo sal marinho, imóvel em si mesmo, aguardando a hora de reviver e usar as suas forças como em sua primeira aparição; mesmo que a vida se restrinja aos segundos cronometrados. A leitura de Dom Quixote do personagem suspende sua imobilidade, revela a obscenidade – a paixão pela vida e certo prazer. O que não é compatível com a sua psicologia inaugural. É um erro. A crítica inventou uma cruzada para Robert e até o paraíso pelo qual quase morreu. O ator Denzel Washington deve ter percebido o equívoco, mas o lucro e a tentação do happy-end foram mais fortes. O problema é não se ter percebido que O velho e o mar é uma versão de O médico e o monstro: o velho pescador Santiago, o grande marlim e os tubarões famintos  são a mesma pessoa navegando naquele corpo, quer dizer, naquele barco.

Mariel Reis nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1976. Ensaísta, contista e poeta. É autor de Linha de recuo e outras estórias (2005), John Fante trabalha no Esquimó (2008), Vida cachorra (2011), Bordel de Bolso (2015), Extravios (2023).